Se não quero das palavras seu sentido, mas aquilo que carregam realmente, e do incêndio quero o fogo e não a rima, da sombra o escuro e não a posição gramatical, se do amor não quero nada, por querer dizer coisas demais, então devo me chamar, como o náufrago, Ninguém, sem querer de ninguém o seu sentido, mas aquilo que vem antes, ainda sem ter estado lá; se da terra quero o que brota e afunda, mas antes que houvesse tempo, e habilidade, para chamar aos frutos, frutos e aos mortos, mortos, então seria melhor apagá-las todas, às palavras, uma a uma, às negras, pequenas aranhas, livrando o dicionário dessa mácula, e beber o que foi tinta até a boca ficar preta, e transformar a tina em chuva, em tigre.
sábado, 18 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
Fogo-fátuo
(Chacal)
ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel
se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia
ela pensa que sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se esquento sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia
ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel
se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia
ela pensa que sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se esquento sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia
sábado, 22 de maio de 2010
"Oh, coração de fé imensa, vejo tua luta intensa, com tua tinta de imprensa; uma vela eu te daria só por pura zombaria! Burlado, escarnecido, vai avante, com teu rabo bamboleante. Deus ordena que o diabo te carregue, que em boa sova te pegue, e te moa o bom finório por todos os teus escritos e teu oco palavrório."
Hermann Hesse
quinta-feira, 13 de maio de 2010
"Ouça: 'A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado."
Hermann Hesse
domingo, 9 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mídia, cinismo e treva
(texto de Marilene Felinto publicado na Caros Amigos de setembro de 2008)
Nada a dizer a um público de jovens disposto a ouvir sobre mídia e poder, mídia e linguagem, mídia e educação. Nada que devesse dizer - eu que passei dez anos da minha vida me prostituindo num jornalão de São Paulo, servindo à perversidade dessa instituição chamada imprensa e, não bastasse isso, desaprendendo o pouco do que um dia soube (que vinha das áreas de literatura e línguas).
Não se trata de arrependimento. Aceito o período como quem foi acometido por uma doença grave que custou a passar, por uma espécie de cegueira temporária, um tipo qualquer de febre marcada por longos momentos de delírio. Uma doença: só me resta, pois, este protesto módico, esta mea-culpa ridícula, pelo destino que se armava contra mim e que fui incapaz de ver.
Mostrar talvez aos jovens apenas o meu autoflagelo, o castigo imposto, a mesma sensação de devastação de quando eu era menina e me obrigavam a me afastar dos brinquedos e das brincadeiras com outras crianças na rua porque eu estava doente: uma vez tive "doença de olhos" (como se dizia em Recife dos anos 1960). Passei dias com os olhos ardendo, pinicados por grãos de areia, vermelhos, purulentos, e submetida ao estranho tratamento que minha mãe conhecia: lavar meus olhos com o leite do peito de mulheres grávidas. Aquilo me enojava de tal modo... Mas eu aceitava resignada, como quem pagasse (pelo sangue de Cristo) o pecado cometido, como se profetizava nos cultos da igreja em que a mãe nos levava. Ninguém tinha culpa pelo meu horrível destino (o de ser atacada por vírus, doenças contagiosas e outras pragas) - apenas eu mesma.
Se fosse cristã, falava aos jovens hoje: fui prostituta e imoral, nada tenho a dizer a pessoas como vocês. Mas não sou. Dizer então que sou uma pessoa sem sabedoria nenhuma, que nada tem, portanto, a falar. A mídia não é educação, imprensa não ensina nada a ninguém, não é padrão para nada, não deve inspirar ninguém a nada porque mídia é mentira. Dizer apenas isso e deixar a sala, gaga.
Quem sabe oferecer uma bibliografia: antes de se ler um jornal ou uma revista, antes de se assistir a um telejornal ou a um anúncio de propaganda, deve-se estudar muito. Não se deve ler a imprensa sem antes conhecer o que se escreveu sobre ela. Somente assim pode-se entender a natureza do simulacro, da manipulação, da mentira.
Contra o universo de vaidade, futilidade e culto à personalidade que é o da mídia, só resta ao espectador-leitor armar-se com ferramentas de conhecimento, com postura política, com atitude anticonsumo que puna a publicidade nociva, por exemplo.
Um tal de Congresso Brasileiro de Publicidade realizado em julho último em São Paulo reuniu dezenas de gordos anunciantes de batata frita, açúcar, cerveja e outras porcarias em nome da "liberdade de expressão comercial". Exigem liberdade para anunciar o que quer que seja e do modo como quiserem nos meios de comunicação de massa: de cachaça a cocô para criancinhas e adultos. Vão criar uma "Frente Parlamentar" para pressionar pela liberdade de anuciar cocô. Ora, uma pesquisa da Universidade de Brasília monitorou, desde 2006, 2.560 horas de comerciais de produtos sujeitos à vigilância sanitária. Dessas peças publicitárias, 42% eram destinadas exclusivamente ao público infantil; e 89,7% eram de alimentos ricos em gordura e açúcar.
Sobre bebidas alcoólicas, dados do Ministério da Saúde mostram que entre 1995 e 1997 o alcoolismo ocupava o quarto lugar no grupo das doenças incapacitáveis. Anualmente, 17.500 pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito associados ao consumo de bebida alcoólica por parte dos motoristas - incentivados pelos anúncios publicitários. Mídia não educa - é cinismo e treva.
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