sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"O operador alteridade supõe constantes irrupções de zonas de obscuridade, oscilação de níveis, porque está sempre ensaiando um movimento paradoxal que se revela cada vez mais atravessado por sucessivos desafios de indecidibilidade: por um lado, são perturbadas as leituras e as reflexões teóricas pela constante incursão de complicações impossíveis de serem homogeneizadas; por outro, uma vez que criam uma urdidura de relações antes impensáveis, dão lugar à possibilidade de se articular cenas culturais e literárias totalmente diferentes."

Graciela Inés Ravetti Gomez


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pra gente aqui sê poeta
e fazê rima compreta
não precisa professô;
basta vê no mês de maio
um poema em cada gaio
e um verso em cada fulô...

Patativa do Assaré

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Negar a revolução é negar a um tempo a razão e a história, isto é, o direito consagrado pela sucessão dos tempos e dos fatos, pela força e natureza das cousas, e pela marcha irresistível dos interesses, que afinal triunfam dessa imobilidade a que tão loucamente aspiram todos os partidos de posse do poder; desse poder conquistado sem dúvida em eras mais remotas pelos mesmos meios que debalde se condenam quando se chega a ocasião de perdê-lo."

João Francisco Lisboa

sábado, 18 de dezembro de 2010

Ninguém

(Nuno Ramos)

Se não quero das palavras seu sentido, mas aquilo que carregam realmente, e do incêndio quero o fogo e não a rima, da sombra o escuro e não a posição gramatical, se do amor não quero nada, por querer dizer coisas demais, então devo me chamar, como o náufrago, Ninguém, sem querer de ninguém o seu sentido, mas aquilo que vem antes, ainda sem ter estado lá; se da terra quero o que brota e afunda, mas antes que houvesse tempo, e habilidade, para chamar aos frutos, frutos e aos mortos, mortos, então seria melhor apagá-las todas, às palavras, uma a uma, às negras, pequenas aranhas, livrando o dicionário dessa mácula, e beber o que foi tinta até a boca ficar preta, e transformar a tina em chuva, em tigre.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

"A religião de uma era é o entretenimento literário da seguinte."

Ralph Waldo Emerson
"Mas quem poderia compreender o que está escrito a ponto de padecer fisicamente, ferindo seu corpo e sangrando com aquilo que lê, durante o ato mesmo de ler? Um novo deus leitor, pregado na cruz do que está escrito. Este mostraria quanto vale uma palavra."

Nuno Ramos
"Aqueles que são capazes de convencê-lo de absurdos são capazes de fazê-lo cometer atrocidades."

Voltaire
"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa."

Blaise Pascal
"(...) a religião é um insulto à dignidade humana. Com ela ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião."

Steven Weinberg

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Ante esse escuro problema
Há muito irônico rir.
Pra nós o vento da esp'rança
Traz o pólen do porvir.
E enquanto o cepticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além."

(Castro Alves, Os escravos)

sábado, 19 de junho de 2010

Fogo-fátuo

(Chacal)

ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel

se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia

ela pensa que sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se esquento sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia

sábado, 22 de maio de 2010

"Oh, coração de fé imensa, vejo tua luta intensa, com tua tinta de imprensa; uma vela eu te daria só por pura zombaria! Burlado, escarnecido, vai avante, com teu rabo bamboleante. Deus ordena que o diabo te carregue, que em boa sova te pegue, e te moa o bom finório por todos os teus escritos e teu oco palavrório."

Hermann Hesse

quinta-feira, 13 de maio de 2010

"Ouça: 'A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado."

Hermann Hesse

domingo, 9 de maio de 2010

"Respeito os muçulmanos, não quem usa a religião para justificar atrocidades"

Shirin Neshat, artista plástica iraniana

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Leite, leitura, letras, literatura
Tudo que passa tudo que dura
Tudo que duramente passa
Tudo que passageiramente dura
TUDO TUDO TUDO
Não passa de caricatura de
você em amargura de
ver que viver não tem cura

(poema anônimo encontrado no Bar do Arante, em Pântano do Sul, Floripa - SC)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

.

da vida que se há de viver
escolho aquela
que me prove que estou viva
e que há possibilidades.

... me experimento

.

(Mariana Amorim)

segunda-feira, 1 de março de 2010

"De todas as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das ideias pareceu-nos a mais dignificante em nossa difícil adolescência política e social."

(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mídia, cinismo e treva

(texto de Marilene Felinto publicado na Caros Amigos de setembro de 2008)

Nada a dizer a um público de jovens disposto a ouvir sobre mídia e poder, mídia e linguagem, mídia e educação. Nada que devesse dizer - eu que passei dez anos da minha vida me prostituindo num jornalão de São Paulo, servindo à perversidade dessa instituição chamada imprensa e, não bastasse isso, desaprendendo o pouco do que um dia soube (que vinha das áreas de literatura e línguas).

Não se trata de arrependimento. Aceito o período como quem foi acometido por uma doença grave que custou a passar, por uma espécie de cegueira temporária, um tipo qualquer de febre marcada por longos momentos de delírio. Uma doença: só me resta, pois, este protesto módico, esta mea-culpa ridícula, pelo destino que se armava contra mim e que fui incapaz de ver.

Mostrar talvez aos jovens apenas o meu autoflagelo, o castigo imposto, a mesma sensação de devastação de quando eu era menina e me obrigavam a me afastar dos brinquedos e das brincadeiras com outras crianças na rua porque eu estava doente: uma vez tive "doença de olhos" (como se dizia em Recife dos anos 1960). Passei dias com os olhos ardendo, pinicados por grãos de areia, vermelhos, purulentos, e submetida ao estranho tratamento que minha mãe conhecia: lavar meus olhos com o leite do peito de mulheres grávidas. Aquilo me enojava de tal modo... Mas eu aceitava resignada, como quem pagasse (pelo sangue de Cristo) o pecado cometido, como se profetizava nos cultos da igreja em que a mãe nos levava. Ninguém tinha culpa pelo meu horrível destino (o de ser atacada por vírus, doenças contagiosas e outras pragas) - apenas eu mesma.

Se fosse cristã, falava aos jovens hoje: fui prostituta e imoral, nada tenho a dizer a pessoas como vocês. Mas não sou. Dizer então que sou uma pessoa sem sabedoria nenhuma, que nada tem, portanto, a falar. A mídia não é educação, imprensa não ensina nada a ninguém, não é padrão para nada, não deve inspirar ninguém a nada porque mídia é mentira. Dizer apenas isso e deixar a sala, gaga.

Quem sabe oferecer uma bibliografia: antes de se ler um jornal ou uma revista, antes de se assistir a um telejornal ou a um anúncio de propaganda, deve-se estudar muito. Não se deve ler a imprensa sem antes conhecer o que se escreveu sobre ela. Somente assim pode-se entender a natureza do simulacro, da manipulação, da mentira.

Contra o universo de vaidade, futilidade e culto à personalidade que é o da mídia, só resta ao espectador-leitor armar-se com ferramentas de conhecimento, com postura política, com atitude anticonsumo que puna a publicidade nociva, por exemplo.

Um tal de Congresso Brasileiro de Publicidade realizado em julho último em São Paulo reuniu dezenas de gordos anunciantes de batata frita, açúcar, cerveja e outras porcarias em nome da "liberdade de expressão comercial". Exigem liberdade para anunciar o que quer que seja e do modo como quiserem nos meios de comunicação de massa: de cachaça a cocô para criancinhas e adultos. Vão criar uma "Frente Parlamentar" para pressionar pela liberdade de anuciar cocô. Ora, uma pesquisa da Universidade de Brasília monitorou, desde 2006, 2.560 horas de comerciais de produtos sujeitos à vigilância sanitária. Dessas peças publicitárias, 42% eram destinadas exclusivamente ao público infantil; e 89,7% eram de alimentos ricos em gordura e açúcar.

Sobre bebidas alcoólicas, dados do Ministério da Saúde mostram que entre 1995 e 1997 o alcoolismo ocupava o quarto lugar no grupo das doenças incapacitáveis. Anualmente, 17.500 pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito associados ao consumo de bebida alcoólica por parte dos motoristas - incentivados pelos anúncios publicitários. Mídia não educa - é cinismo e treva.

domingo, 26 de abril de 2009

Áporo

(Carlos Drummond de Andrade)

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Quer fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

Alberto Caeiro