"Ante esse escuro problema
Há muito irônico rir.
Pra nós o vento da esp'rança
Traz o pólen do porvir.
E enquanto o cepticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além."
(Castro Alves, Os escravos)
terça-feira, 21 de setembro de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
Fogo-fátuo
(Chacal)
ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel
se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia
ela pensa que sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se esquento sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia
ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel
se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia
ela pensa que sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se esquento sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia
sábado, 22 de maio de 2010
"Oh, coração de fé imensa, vejo tua luta intensa, com tua tinta de imprensa; uma vela eu te daria só por pura zombaria! Burlado, escarnecido, vai avante, com teu rabo bamboleante. Deus ordena que o diabo te carregue, que em boa sova te pegue, e te moa o bom finório por todos os teus escritos e teu oco palavrório."
Hermann Hesse
quinta-feira, 13 de maio de 2010
"Ouça: 'A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado."
Hermann Hesse
domingo, 9 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mídia, cinismo e treva
(texto de Marilene Felinto publicado na Caros Amigos de setembro de 2008)
Nada a dizer a um público de jovens disposto a ouvir sobre mídia e poder, mídia e linguagem, mídia e educação. Nada que devesse dizer - eu que passei dez anos da minha vida me prostituindo num jornalão de São Paulo, servindo à perversidade dessa instituição chamada imprensa e, não bastasse isso, desaprendendo o pouco do que um dia soube (que vinha das áreas de literatura e línguas).
Não se trata de arrependimento. Aceito o período como quem foi acometido por uma doença grave que custou a passar, por uma espécie de cegueira temporária, um tipo qualquer de febre marcada por longos momentos de delírio. Uma doença: só me resta, pois, este protesto módico, esta mea-culpa ridícula, pelo destino que se armava contra mim e que fui incapaz de ver.
Mostrar talvez aos jovens apenas o meu autoflagelo, o castigo imposto, a mesma sensação de devastação de quando eu era menina e me obrigavam a me afastar dos brinquedos e das brincadeiras com outras crianças na rua porque eu estava doente: uma vez tive "doença de olhos" (como se dizia em Recife dos anos 1960). Passei dias com os olhos ardendo, pinicados por grãos de areia, vermelhos, purulentos, e submetida ao estranho tratamento que minha mãe conhecia: lavar meus olhos com o leite do peito de mulheres grávidas. Aquilo me enojava de tal modo... Mas eu aceitava resignada, como quem pagasse (pelo sangue de Cristo) o pecado cometido, como se profetizava nos cultos da igreja em que a mãe nos levava. Ninguém tinha culpa pelo meu horrível destino (o de ser atacada por vírus, doenças contagiosas e outras pragas) - apenas eu mesma.
Se fosse cristã, falava aos jovens hoje: fui prostituta e imoral, nada tenho a dizer a pessoas como vocês. Mas não sou. Dizer então que sou uma pessoa sem sabedoria nenhuma, que nada tem, portanto, a falar. A mídia não é educação, imprensa não ensina nada a ninguém, não é padrão para nada, não deve inspirar ninguém a nada porque mídia é mentira. Dizer apenas isso e deixar a sala, gaga.
Quem sabe oferecer uma bibliografia: antes de se ler um jornal ou uma revista, antes de se assistir a um telejornal ou a um anúncio de propaganda, deve-se estudar muito. Não se deve ler a imprensa sem antes conhecer o que se escreveu sobre ela. Somente assim pode-se entender a natureza do simulacro, da manipulação, da mentira.
Contra o universo de vaidade, futilidade e culto à personalidade que é o da mídia, só resta ao espectador-leitor armar-se com ferramentas de conhecimento, com postura política, com atitude anticonsumo que puna a publicidade nociva, por exemplo.
Um tal de Congresso Brasileiro de Publicidade realizado em julho último em São Paulo reuniu dezenas de gordos anunciantes de batata frita, açúcar, cerveja e outras porcarias em nome da "liberdade de expressão comercial". Exigem liberdade para anunciar o que quer que seja e do modo como quiserem nos meios de comunicação de massa: de cachaça a cocô para criancinhas e adultos. Vão criar uma "Frente Parlamentar" para pressionar pela liberdade de anuciar cocô. Ora, uma pesquisa da Universidade de Brasília monitorou, desde 2006, 2.560 horas de comerciais de produtos sujeitos à vigilância sanitária. Dessas peças publicitárias, 42% eram destinadas exclusivamente ao público infantil; e 89,7% eram de alimentos ricos em gordura e açúcar.
Sobre bebidas alcoólicas, dados do Ministério da Saúde mostram que entre 1995 e 1997 o alcoolismo ocupava o quarto lugar no grupo das doenças incapacitáveis. Anualmente, 17.500 pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito associados ao consumo de bebida alcoólica por parte dos motoristas - incentivados pelos anúncios publicitários. Mídia não educa - é cinismo e treva.
domingo, 26 de abril de 2009
Áporo
(Carlos Drummond de Andrade)
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Quer fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Quer fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
A idéia de que a literatura não serve para nada surgiu na modernidade; e a considero muito importante. É uma idéia política. É essa idéia que vai fazer a literatura de verdade sobreviver. A literatura que serve para alguma coisa é a que o mercado quer. Se vivêssemos na Idade Média, a literatura serviria para a Igreja. Se vivêssemos num país comunista, faríamos literatura oficial. Não servir para nada é um negócio radical e muito importante; permite que se faça uma literatura de ruptura, que não obedece a demandas preexistentes; cria uma nova demanda. Não é o novo pelo novo. Não é isso. É criar um mundo que ainda não existe. Criar uma vontade nas pessoas que elas ainda não têm. Isso é genial. É uma oferta para ver se germina. É lógico que eu acho que a literatura serve para alguma coisa. Mas preciso manter esta idéia, porque é uma idéia política, de resistência: literatura não serve para nada mesmo. Mas eu vou continuar fazendo. A ilusão de que não tem função é superimportante. Para mim, é fundamental; me dá um alento; me deixa respirar.
(Bernardo Carvalho)
(Bernardo Carvalho)
Eu sou um pouco paranóico. Mas se pode ver a paranóia como a criação do sentido. Se o mundo não faz sentido - e não faz -, o paranóico é que aquele que vê sentido onde não tem. O mundo não faz sentido, a vida não tem sentido, não faz sentido eu estar vivo. A paranóia me atraía como uma matriz de sentido, uma matriz desvairada. A idéia da paranóia me atraía como ficção, como produção de ficção.
(Bernardo Carvalho)
(Bernardo Carvalho)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê - eu não tinha medo -
Pus-me a querer rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós...
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...
(Alberto Caeiro)
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê - eu não tinha medo -
Pus-me a querer rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós...
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...
(Alberto Caeiro)
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